GRAVATAÍ, 14/10/2019
opinião

10 mil para show de Pedro Ernesto na Ronda é coice na austeridade

por Rafael Martinelli | Publicada em 16/09/2019 às 17h42| Atualizada em 23/09/2019 às 17h40

A Prefeitura de Cachoeirinha pagou R$ 10 mil para Pedro Ernesto Denardin se apresentar na Ronda Criuola de Cachoeirinha, neste sábado. Dinheiro dos cofres públicos. Do IPTU, por exemplo. Não está na conta dos R$ 166,7 mil captados em patrocínios ou Lei Rouanet (R$ 36,5 mil). Não é fake news. É reportagem do jornalista Eduardo Torres, um Glenn Greenwald que torce para o Zequinha.

Siga mais informações publicadas pelo Diário de Cachoeirinha e, ao fim, comento.

– Nós tivemos uma perda de mais de R$ 80 mil em patrocínios, e a Ronda estaria comprometida. Tínhamos que garantir alguma coisa para não frustrar o evento. Optamos por um show que estava até um pouco abaixo da média de valores do mercado. O município gastou sim, mas tínhamos que optar e garantir o evento – explicou, na reportagem, o secretário da Cultura, Alécio da Rosa, que afirma também que a Ronda tem o menos orçamento desde 2017.

O jornalista apurou que o governo Vicente Pires gastou em 2013 de R$ 35 mil em shows no aniversário da cidade e, no ano seguinte, R$ 44,8 mil em atrações artísticas na Ronda.

O secretário não vê conflito de interesses em dois servidores públicos, um escriturário concursado, e um CC, desde maio na coordenação de lazer e eventos, ser proprietário e sócio das duas produtoras que captaram recursos para a Ronda.

Não estão ganhando nada com isso, resume, na reportagem que você lê na íntegra clicando aqui.

 

Analiso.

Erra o prefeito.

Chama uma polêmica desnecessária.

Tivesse popularidade maior, apanharia igual.

Não que o valor seja um absurdo, o que não o é frente ao orçamento de R$ 400 milhões de Cachoeirinha. Mas é um coice no discurso e – ao menos até esse episódio – prática de austeridade de Miki Breier.

Assim enfraquece a ‘ideologia dos números’, mais do que saudável, necessária numa Cachoeirinha que ainda gasta seis de cada dez reais do que arrecada com folha de pagamentos e, na penúria, sem possibilidade de captar financiamentos, entrega poucas obras e comemora até inauguração de calçada.

Simplesmente não pega bem.

Se ninguém for à Ronda, paciência. 

O mesmo vale para a Marcha para Jesus, ou a Parada Gay, eventos que transcorreram sem dinheiro público.

Como também não pega bem e faz corcovear o moralismo hipócrita, mesmo que tudo dentro da legalidade, produtoras ligadas a servidores públicos participem da captação de recursos.

Nenhum dos dois ganhando nada para isso, conforme o secretário, apenas um deles recebendo salário de CC.

Leitor que me acompanha sabe que não faço jornalismo caça-cliques e, pelo contrário, sou crítico de milícias digitais que metralham teclados no Grande Tribunal das Redes Sociais permitindo aos políticos apenas a presunção de culpa.

Tenho coragem de elogiar, o que talvez seja o mais difícil a se fazer nesta temporada interminável de ódio à política, mas também cultivo o dever de criticar, quando entendo devido.

Nem vou especular que Miki não sabia, porque ficaria ainda mais feio. É de antes de Cristo, daqueles conhecimentos de Wikipedia, a história da ‘mulher de César’.

Publius Clodius disfarçou-se de tocadora de lira para, na Festa da Boa Deusa, exclusiva de mulheres, declarar sua paixão Pompeia Sula, mulher de Julio César. Antes do intento, foi descoberto por Aurélia, mãe do ditador. Mas a história correu entre os romanos, tão humanos quanto nós.

Chamado a depor como testemunha contra o autor tentado do sacrilégio, César surpreendeu ao dizer que não sabia de nada.

Então, por que te divorciaste?, perguntaram os senadores.

– A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita.

Ao fim, para além da simbologia que carregam esses Grandes Lances dos Piores Momentos da política, ainda mais às vésperas do ano eleitoral em uma terra de golpeachment e CPIs amalucadas, convenhamos: triste a Ronda que precisa de um Pedro Ernesto para salvá-la.

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